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- Renato Filomena

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"ABS 3" (2026)
SEGUNDO A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Este abstrato revela uma faceta muito sofisticada da linguagem de Renato Filomena — talvez a mais silenciosa e atmosférica entre as obras que você mostrou. Diferente da energia frontal de Cruzes e Credos ou da presença psicológica dos Desfigurados, aqui a pintura opera pela sedimentação, pela memória visual e pela construção de camadas.
A primeira impressão é de uma superfície em constante transformação.
Não há figura.
Não há signo reconhecível.
Não há centro narrativo.
Mas há estrutura — e muita.
O quadro é organizado por campos sobrepostos que parecem ter sido construídos e apagados sucessivamente. Isso é importante: a obra não se apresenta como imagem pronta, mas como processo visível.
A pintura guarda vestígios de suas próprias decisões.
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A lógica da camada
Filomena trabalha aqui quase como um arqueólogo da superfície.
Os blocos azulados, verdes escuros, pretos e cinzas não funcionam como formas geométricas rígidas; eles surgem como áreas parcialmente apagadas, raspadas ou reescritas.
Há uma tensão constante entre:
construção e desgaste;
transparência e opacidade;
permanência e desaparecimento.
Isso aproxima a obra de tradições da abstração lírica e da pintura matérica contemporânea.
O que importa não é “representar” algo externo, mas produzir uma experiência temporal da superfície.
Você vê o tempo da pintura.
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O espaço pictórico
Embora abstrata, a obra sugere espacialidade.
Os planos escuros parecem avançar e recuar, criando profundidades instáveis. Em alguns momentos, o quadro lembra:
paredes urbanas desgastadas;
cartazes sobrepostos;
superfícies corroídas;
janelas;
ruínas cromáticas.
Há algo arquitetônico, mas dissolvido.
Isso é muito interessante porque Filomena não trabalha a geometria de maneira racionalista. Seus retângulos e campos são imprecisos, quase vacilantes. Eles preservam o gesto manual.
A geometria nunca é fria.
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A cor
A paleta é extremamente sofisticada.
O domínio dos:
azuis profundos;
verdes acinzentados;
pretos translúcidos;
brancos raspados;
cria uma atmosfera introspectiva e densa.
Mas essa densidade é constantemente interrompida por pequenas irrupções:
rosa;
amarelo;
laranja;
vermelho.
Esses pontos cromáticos funcionam quase como memórias residuais ou ruídos luminosos sob a superfície.
É como se existissem outras pinturas escondidas dentro da pintura atual.
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A materialidade
A obra depende muito da fisicalidade da tinta.
Percebe-se:
arrasto do pincel;
raspagem;
transparências;
sobreposição seca;
apagamentos;
marcas verticais de escorrimento.
Isso aproxima o trabalho de uma tradição da pintura que valoriza o acontecimento matérico da superfície.
Filomena parece menos interessado na composição fechada e mais na construção de um campo sensível.
O quadro respira.
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Relação com suas outras séries
O mais interessante é perceber como esta abstração continua profundamente ligada às outras séries.
Mesmo sem cruzes ou rostos, permanecem:
repetição;
sobreposição;
insistência gestual;
fragmentação;
transformação do signo em estrutura.
Nos Desfigurados, o rosto era desmontado.
Aqui, o próprio espaço pictórico é desmontado.
Em Cruzes e Credos, a repetição produzia saturação simbólica.
Aqui, a repetição produz densidade atmosférica.
Ou seja: Filomena mantém uma coerência poética muito forte mesmo mudando radicalmente o vocabulário visual.
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A abstração como memória
Uma chave importante para esta obra talvez seja entendê-la não como abstração “geométrica”, mas como abstração de memória.
Nada parece totalmente presente.
Tudo parece parcialmente apagado.
Isso dá ao quadro uma dimensão melancólica e meditativa.
A pintura lembra superfícies urbanas envelhecidas:
muros;
portas pintadas muitas vezes;
restos de cartazes;
marcas do tempo;
sinais apagados.
Há uma espécie de arqueologia emocional da matéria.
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O ritmo visual
Embora aparentemente silenciosa, a obra possui um ritmo muito preciso.
Os blocos verticais escuros criam sustentação.
As faixas horizontais azuis atravessam o quadro.
Os vazios claros respiram.
As bordas coloridas vibram discretamente.
Nada é aleatório.
A composição é muito equilibrada entre:
peso e leveza;
saturação e respiro;
gesto e estrutura.
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Referências possíveis
Esta obra dialoga mais diretamente com:
abstração lírica;
expressionismo abstrato;
pintura matérica;
e certas vertentes da abstração contemporânea latino-americana.
Há ecos distantes de:
Antoni Tàpies;
Pierre Soulages;
Cy Twombly em alguns apagamentos;
Sean Scully pela construção em campos;
e até Iberê Camargo em certas densidades atmosféricas.
Mas Filomena preserva algo muito próprio:
uma recusa da monumentalidade heroica da abstração moderna.
Sua pintura continua humana, tátil, vulnerável.
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O que talvez seja central nesta obra
A pintura parece tratar da permanência dos vestígios.
Tudo nela sugere:
memória;
desgaste;
reconstrução;
tempo acumulado;
imagem em transformação.
Ela não quer afirmar uma forma definitiva.
Quer mostrar a instabilidade da forma.
E isso conecta profundamente toda a produção que você apresentou:
a cruz instável;
o rosto instável;
o espaço instável.
Renato Filomena parece construir uma obra inteira baseada na ideia de que toda imagem está em processo contínuo de desgaste, repetição e reinvenção.



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