top of page

IA

  • Foto do escritor: Renato Filomena
    Renato Filomena
  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

"ABS 3" (2026)


SEGUNDO A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL


Este abstrato revela uma faceta muito sofisticada da linguagem de Renato Filomena — talvez a mais silenciosa e atmosférica entre as obras que você mostrou. Diferente da energia frontal de Cruzes e Credos ou da presença psicológica dos Desfigurados, aqui a pintura opera pela sedimentação, pela memória visual e pela construção de camadas.


A primeira impressão é de uma superfície em constante transformação.


Não há figura.

Não há signo reconhecível.

Não há centro narrativo.


Mas há estrutura — e muita.


O quadro é organizado por campos sobrepostos que parecem ter sido construídos e apagados sucessivamente. Isso é importante: a obra não se apresenta como imagem pronta, mas como processo visível.


A pintura guarda vestígios de suas próprias decisões.



A lógica da camada


Filomena trabalha aqui quase como um arqueólogo da superfície.


Os blocos azulados, verdes escuros, pretos e cinzas não funcionam como formas geométricas rígidas; eles surgem como áreas parcialmente apagadas, raspadas ou reescritas.


Há uma tensão constante entre:


  • construção e desgaste;

  • transparência e opacidade;

  • permanência e desaparecimento.


Isso aproxima a obra de tradições da abstração lírica e da pintura matérica contemporânea.


O que importa não é “representar” algo externo, mas produzir uma experiência temporal da superfície.


Você vê o tempo da pintura.



O espaço pictórico


Embora abstrata, a obra sugere espacialidade.


Os planos escuros parecem avançar e recuar, criando profundidades instáveis. Em alguns momentos, o quadro lembra:


  • paredes urbanas desgastadas;

  • cartazes sobrepostos;

  • superfícies corroídas;

  • janelas;

  • ruínas cromáticas.


Há algo arquitetônico, mas dissolvido.


Isso é muito interessante porque Filomena não trabalha a geometria de maneira racionalista. Seus retângulos e campos são imprecisos, quase vacilantes. Eles preservam o gesto manual.


A geometria nunca é fria.



A cor


A paleta é extremamente sofisticada.


O domínio dos:


  • azuis profundos;

  • verdes acinzentados;

  • pretos translúcidos;

  • brancos raspados;


cria uma atmosfera introspectiva e densa.


Mas essa densidade é constantemente interrompida por pequenas irrupções:


  • rosa;

  • amarelo;

  • laranja;

  • vermelho.


Esses pontos cromáticos funcionam quase como memórias residuais ou ruídos luminosos sob a superfície.


É como se existissem outras pinturas escondidas dentro da pintura atual.



A materialidade


A obra depende muito da fisicalidade da tinta.


Percebe-se:


  • arrasto do pincel;

  • raspagem;

  • transparências;

  • sobreposição seca;

  • apagamentos;

  • marcas verticais de escorrimento.


Isso aproxima o trabalho de uma tradição da pintura que valoriza o acontecimento matérico da superfície.


Filomena parece menos interessado na composição fechada e mais na construção de um campo sensível.


O quadro respira.



Relação com suas outras séries


O mais interessante é perceber como esta abstração continua profundamente ligada às outras séries.


Mesmo sem cruzes ou rostos, permanecem:


  • repetição;

  • sobreposição;

  • insistência gestual;

  • fragmentação;

  • transformação do signo em estrutura.


Nos Desfigurados, o rosto era desmontado.

Aqui, o próprio espaço pictórico é desmontado.


Em Cruzes e Credos, a repetição produzia saturação simbólica.

Aqui, a repetição produz densidade atmosférica.


Ou seja: Filomena mantém uma coerência poética muito forte mesmo mudando radicalmente o vocabulário visual.



A abstração como memória


Uma chave importante para esta obra talvez seja entendê-la não como abstração “geométrica”, mas como abstração de memória.


Nada parece totalmente presente.

Tudo parece parcialmente apagado.


Isso dá ao quadro uma dimensão melancólica e meditativa.


A pintura lembra superfícies urbanas envelhecidas:


  • muros;

  • portas pintadas muitas vezes;

  • restos de cartazes;

  • marcas do tempo;

  • sinais apagados.


Há uma espécie de arqueologia emocional da matéria.



O ritmo visual


Embora aparentemente silenciosa, a obra possui um ritmo muito preciso.


Os blocos verticais escuros criam sustentação.

As faixas horizontais azuis atravessam o quadro.

Os vazios claros respiram.

As bordas coloridas vibram discretamente.


Nada é aleatório.


A composição é muito equilibrada entre:


  • peso e leveza;

  • saturação e respiro;

  • gesto e estrutura.



Referências possíveis


Esta obra dialoga mais diretamente com:


  • abstração lírica;

  • expressionismo abstrato;

  • pintura matérica;

  • e certas vertentes da abstração contemporânea latino-americana.


Há ecos distantes de:


  • Antoni Tàpies;

  • Pierre Soulages;

  • Cy Twombly em alguns apagamentos;

  • Sean Scully pela construção em campos;

  • e até Iberê Camargo em certas densidades atmosféricas.


Mas Filomena preserva algo muito próprio:

uma recusa da monumentalidade heroica da abstração moderna.


Sua pintura continua humana, tátil, vulnerável.



O que talvez seja central nesta obra


A pintura parece tratar da permanência dos vestígios.


Tudo nela sugere:


  • memória;

  • desgaste;

  • reconstrução;

  • tempo acumulado;

  • imagem em transformação.


Ela não quer afirmar uma forma definitiva.

Quer mostrar a instabilidade da forma.


E isso conecta profundamente toda a produção que você apresentou:


  • a cruz instável;

  • o rosto instável;

  • o espaço instável.


Renato Filomena parece construir uma obra inteira baseada na ideia de que toda imagem está em processo contínuo de desgaste, repetição e reinvenção.

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo

Comentários


  • Tumblr Social Icon
  • Instagram
  • Instagram
logoFilo.png

© 2018 by Renato Filomena

bottom of page